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Braskem em alerta: quando uma empresa deixa de ser apenas uma empresa

Foto do escritor: Marcelo Lopes
Marcelo Lopes
27 de jun.
2 min de leitura

A queda de mais de 10% das ações da Braskem nesta semana é mais do que um movimento de mercado: acende um alerta para o Estado brasileiro. O que está em jogo não é apenas a situação financeira de uma empresa, mas a preservação de um ativo estratégico para a indústria nacional. A petroquímica ocupa posição central em qualquer economia desenvolvida, abastecendo praticamente todas as cadeias produtivas — embalagens, construção civil, automotiva, eletroeletrônicos, saúde, agricultura, bens de consumo e, cada vez mais, a transição energética. Não existe reindustrialização sem uma petroquímica forte, competitiva e tecnologicamente atualizada.


Foto obtida na área de imprensa no site da Braskem.
Foto obtida na área de imprensa no site da Braskem.

Nesse contexto, a Braskem — maior petroquímica da América Latina e uma das poucas brasileiras com presença global em um setor intensivo em capital e tecnologia — tornou-se peça-chave para a autonomia produtiva do país. Por produzir insumos básicos, concentrar conhecimento tecnológico e sustentar atividades industriais essenciais, sua fragilização afetaria não apenas acionistas e credores, mas também fornecedores, clientes, centros de pesquisa, empregos qualificados e a própria capacidade do Brasil de produzir insumos estratégicos. Trata-se, portanto, de uma empresa claramente estratégica.


A responsabilidade pela gestão da companhia é de seus administradores e controladores, mas cabe ao Estado estar atento para que uma eventual deterioração financeira não resulte em desnacionalização ou perda de capacidades produtivas críticas. Em momentos de estresse, empresas estratégicas tornam-se alvos baratos para grupos estrangeiros — e isso não se limita à mudança de controle, mas também à possível transferência de tecnologia, centros decisórios, investimentos e influência sobre cadeias essenciais. O Brasil já viveu esse processo e conhece bem seus custos.


Num cenário global marcado por disputa tecnológica, reorganização das cadeias de valor e uso crescente da política industrial como instrumento de poder nacional, perder uma empresa desse porte significaria reduzir ainda mais a autonomia produtiva do país. As principais economias do mundo dispõem de instrumentos para preservar ativos estratégicos quando sua fragilidade ameaça interesses nacionais relevantes. Isso significa reconhecer que certos ativos possuem importância sistêmica e que sua perda pode custar muito mais ao país do que eventuais medidas de estabilização.


O caso da Braskem exige acompanhamento atento. O Brasil não pode correr o risco de ver ruir um de seus poucos campeões industriais globais. Em tempos de reorganização das cadeias produtivas e de competição geoeconômica crescente, preservar capacidades estratégicas deixou de ser uma escolha ideológica e tornou-se uma questão de soberania econômica.


A nova Lei de Política Industrial, aprovada recentemente pela Câmara, estabelece como diretriz o fortalecimento de empresas brasileiras de capital nacional e o adensamento das cadeias produtivas. Seria uma contradição histórica aprovar esse marco e, simultaneamente, assistir ao colapso ou à desnacionalização da maior petroquímica do continente. Política industrial não se mede apenas pela criação de novas empresas, mas também pela disposição de preservar aquelas que concentram competências estratégicas já consolidadas. Se o Brasil pretende se tornar uma potência industrial, não pode tratar a eventual perda da Braskem como um simples problema de mercado.


Empresas estratégicas não são apenas patrimônio de seus acionistas. São parte do patrimônio produtivo da nação.

 

 


Marcelo Lopes

Engenheiro Mecânico e Mestre em Engenharia de Produção. Atuou na formulação e gestão de políticas públicas nas áreas de ciência, tecnologia, inovação e desenvolvimento produtivo. Escreve sobre política industrial e estratégia tecnológica.

 

 

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