O ciclo militar (1964–1985): o auge e o limite da industrialização pesada
- Marcelo Lopes
- 31 de jan.
- 6 min de leitura
Atualizado: 7 de mar.
O ciclo militar retomou, em parte, a lógica varguista: Estado forte, planejamento centralizado e aposta em setores estratégicos. Foi o último grande esforço de industrialização profunda que o Brasil conheceu. O modelo tinha coerência, instrumentos robustos e ambição tecnológica — algo raro na história brasileira.
Ao mesmo tempo, manteve uma contradição estrutural: a dependência de multinacionais em setores de ponta, herança direta do período JK. Essa assimetria marcou todo o ciclo.

O modelo: instrumentos, instituições e lógica de funcionamento
BNDE — o cérebro financeiro da industrialização pesada
O BNDE (depois BNDES) foi o pilar central do modelo. Ele financiou:
siderurgia
petroquímica
mineração
bens de capital
infraestrutura energética
telecomunicações
O BNDE não era apenas um banco: era um planejador de longo prazo, capaz de direcionar crédito para setores estratégicos e induzir a formação de cadeias produtivas completas. Sem ele, não haveria CSN moderna, não haveria expansão da Petrobras, não haveria Embraer.
FINAME — o motor da indústria de bens de capital
A FINAME foi criada para resolver um problema estrutural: o Brasil precisava de máquinas, mas não tinha uma indústria forte de máquinas.
A solução foi simples e brilhante: financiar a compra de máquinas nacionais com crédito subsidiado, obrigando empresas a adquirir equipamentos produzidos no Brasil.
Isso criou demanda, estimulou engenharia local e permitiu que o país desenvolvesse fabricantes de:
motores
turbinas
máquinas-ferramenta
equipamentos elétricos
sistemas industriais
Foi um dos instrumentos mais inteligentes já criados no país.
CACEX — o comando do comércio exterior
A CACEX, dentro do Banco do Brasil, controlava:
importações
exportações
licenças
tarifas
incentivos
Ela funcionava como um filtro estratégico: só entrava no país o que fosse necessário para o desenvolvimento industrial. Não havia abertura indiscriminada. A CACEX protegia a indústria nascente e garantia que o câmbio fosse usado como instrumento de política industrial.
Era o oposto do que viria nos anos 1990.
O CNPq — ciência, tecnologia e soberania
Criado em 1951, o CNPq já existia no período militar e ganhou importância estratégica. Ele foi concebido para:
formar cientistas
financiar pesquisa
desenvolver tecnologia nacional
apoiar laboratórios e institutos
articular ciência e indústria
Durante o regime militar, o CNPq:
financiou a formação de milhares de engenheiros e pesquisadores
apoiou o desenvolvimento da Embraer
fortaleceu institutos como ITA, IPT, INPE e LNCC
contribuiu para a engenharia submarina da Petrobras
integrou universidades ao esforço industrial do II PND
O CNPq era o elo entre ciência, tecnologia e projeto nacional.
FINEP — o braço tecnológico do Estado
A FINEP financiava pesquisa, inovação e desenvolvimento tecnológico. Foi decisiva para:
Embraer
Telebrás
Petrobras (engenharia submarina)
universidades e centros de pesquisa
laboratórios de tecnologia industrial
A FINEP articulava ciência e indústria — algo que o Brasil perdeu nas décadas seguintes.
NAIs — os centros de coordenação estratégica entre Estado e indústria
Os Núcleos de Articulação com a Indústria (NAIs) foram um dos instrumentos mais sofisticados criados no período. Eles funcionavam como mesas permanentes de coordenação, reunindo governo, empresas estatais, empresas privadas nacionais e, em alguns casos, multinacionais.
Setores de atuação dos NAIs
petroquímica
siderurgia
mineração e metalurgia
telecomunicações
energia elétrica
bens de capital
defesa e aeronáutica
eletrônica e informática nascente
Cada NAI tinha a função de mapear gargalos, alinhar investimentos e garantir que os projetos convergissem para um objetivo comum.
Principais resultados dos NAIs
coordenação da criação dos polos petroquímicos (Camaçari, Triunfo, Capuava)
alinhamento de investimentos entre Petrobras, petroquímicas estatais e fornecedores privados
estruturação da cadeia de telecomunicações, permitindo que a Telebrás desenvolvesse tecnologia nacional
articulação de fornecedores nacionais para a indústria de bens de capital
integração entre universidades e centros de pesquisa
garantia de conteúdo nacional elevado em grandes obras
Em síntese: os NAIs eram o cérebro de coordenação fina do modelo. Sem eles, o II PND teria sido apenas um conjunto de investimentos dispersos.
A área de participações — o Estado como acionista estratégico
Ela funcionava como um braço de capitalização e controle, permitindo que o Estado:
entrasse como sócio em empresas estratégicas
garantisse poder de decisão em setores sensíveis
capitalizasse empresas nacionais para competir com multinacionais
direcionasse investimentos privados para prioridades industriais
evitasse que setores críticos fossem dominados por capital externo
Essa área foi fundamental para:
a expansão da Petrobras
a consolidação da Vale
a criação de empresas petroquímicas estatais
o fortalecimento da indústria de base
a formação de grupos nacionais de engenharia
Era um instrumento de soberania econômica — e um dos primeiros a ser desmontado nas décadas seguintes.
Instituições complementares que reforçaram o modelo
A seguir, as instituições adicionais que completam o ecossistema da política industrial do período:
SUDENE e SUDAM — desenvolvimento regional com lógica industrial
Foram usadas para:
atrair indústrias ao Nordeste e Amazônia
conceder incentivos fiscais
financiar infraestrutura regional
apoiar projetos industriais de médio porte
A SUDENE funcionou como um planejador regional, articulando investimentos industriais no Nordeste.
IPEA — inteligência técnica do Estado
Criado em 1964, o IPEA deu suporte técnico ao Ministério do Planejamento:
produziu diagnósticos econômicos
formulou políticas públicas
deu base analítica aos PNDs
Era o think tank do Estado desenvolvimentista.
CPqD — o centro tecnológico da Telebrás
Criado em 1976, tornou-se:
o maior centro de P&D em telecom da América Latina
responsável por desenvolver tecnologia nacional
articulador de fornecedores brasileiros
Foi um dos pilares tecnológicos mais bem-sucedidos do período.
EMBRAPA — ciência aplicada à produção
Criada em 1973, revolucionou a agricultura tropical:
desenvolveu tecnologia própria
integrou ciência e produção
criou um modelo de inovação reconhecido mundialmente
Mostra que o Estado desenvolvimentista atuava além da indústria pesada.
CEPEL — o centro de pesquisa da Eletrobras
Criado em 1974, foi decisivo para:
desenvolver tecnologia nacional em energia elétrica
apoiar grandes hidrelétricas
fortalecer a engenharia do setor elétrico
Era o equivalente energético do CPqD.
Por que esses instrumentos importavam tanto
O II PND não foi apenas um plano — foi uma arquitetura institucional. Esses instrumentos permitiram:
coordenar investimentos de longo prazo
reduzir riscos para empresas nacionais
desenvolver tecnologia própria
criar cadeias produtivas completas
proteger setores estratégicos
formar engenheiros e capacidade industrial
Com esses instrumentos e lideranças, o Brasil fez o maior salto industrial de sua história. Mas a dependência tecnológica em setores de ponta — reforçada desde JK e mantida pelos militares — criou uma assimetria estrutural.
O problema não foi a estratégia industrial pesada — foi o financiamento externo e a falta de autonomia tecnológica nos setores mais dinâmicos da economia mundial.
Quando os juros internacionais explodiram, o modelo ficou insustentável.
As lideranças que conduziram o processo
João Paulo dos Reis Velloso — o arquiteto do planejamento
Articulou o I e o II PND, expandiu o BNDE, integrou FINEP e CNPq ao esforço industrial e estruturou a lógica de substituição de importações em setores de base.
Antônio Delfim Netto — o estrategista macroeconômico
Garantiu crescimento acelerado, articulou política fiscal e monetária com política industrial e usou o mercado interno como motor de expansão — mesmo reforçando dependências tecnológicas.
Mário Henrique Simonsen — o guardião da estabilidade
Defendeu disciplina fiscal, controle da inflação e racionalidade nos investimentos. Foi essencial para evitar desequilíbrios ainda maiores no ciclo de endividamento externo.
A herança de JK: a contradição que o regime militar não enfrentou
Apesar da ambição industrial, o regime militar não rompeu com a lógica inaugurada por JK:
mercado interno protegido entregue a multinacionais
incentivos e crédito subsidiado sem contrapartidas tecnológicas
baixa exigência de conteúdo local avançado
ausência de pressão por marcas e engenharia nacionais
Enquanto Japão e Coreia criavam Toyota, Honda, Hyundai e Kia, o Brasil consolidava Ford, GM, Volkswagen e Mercedes-Benz como donas do mercado.
O país avançou na indústria pesada, mas permaneceu dependente em setores de ponta — uma assimetria que limitou o potencial de longo prazo.
Conclusão
O regime militar deixou um legado ambíguo. Do ponto de vista político, institucional e social, foi um período péssimo para o país: autoritarismo, censura, violações de direitos e ausência de democracia. Mas, paradoxalmente, foi também o momento em que o Brasil mais avançou em termos de construção de capacidades produtivas, infraestrutura e engenharia nacional. O auge desse processo ocorreu no governo Geisel, quando o Estado coordenou o II PND com uma visão estratégica rara na história brasileira.
Ainda assim, o modelo carregava um limite estrutural: não enfrentou a dependência tecnológica criada no período JK, mantendo a troca de mercado e proteção por empregos industriais gerados por multinacionais. Isso impediu o surgimento de marcas globais e cadeias completas em setores de ponta.
O Brasil avançou na indústria pesada, mas permaneceu frágil na indústria de alta tecnologia. Criou engenharia de classe mundial em energia, petróleo, aviação e telecomunicações, mas não desenvolveu autonomia em bens de consumo duráveis, eletrônica, automotivo e informática. No final, o descontrole macroeconômico — juros internacionais, choque do petróleo e endividamento externo — tornou o modelo insustentável.
A lição histórica é clara: o Brasil só avança quando tem projeto nacional, coordenação estatal e visão de futuro — mas precisa combinar isso com autonomia tecnológica, disciplina macroeconômica e capacidade de construir marcas próprias. Sem isso, qualquer esforço de industrialização fica pela metade.
Marcelo Lopes
Engenheiro e mestre em Engenharia de Produção. Atuou na formulação e gestão de políticas públicas nas áreas de ciência, tecnologia, inovação e desenvolvimento produtivo. Escreve sobre política industrial e estratégia tecnológica.



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