A ruptura dos anos 1990: desmonte, abertura e perda de capacidades
- Marcelo Lopes
- 31 de jan.
- 5 min de leitura
Atualizado: 7 de mar.
O início dos anos 1990 marcou a maior ruptura estrutural da história econômica brasileira desde 1930. Depois de quase seis décadas de construção de capacidades produtivas, industriais e tecnológicas — com erros, acertos, contradições e avanços — o país adotou uma estratégia completamente distinta: a crença de que o mercado, sozinho, seria capaz de reorganizar a economia, modernizar a indústria e elevar a produtividade.
Essa mudança não foi apenas uma alteração de política econômica — foi uma mudança de paradigma, que desmontou instrumentos, instituições e lógicas que sustentavam o desenvolvimento brasileiro desde Vargas.

Abertura comercial acelerada: a ruptura sem transição
A abertura comercial conduzida entre 1990 e 1994 foi:
rápida demais
sem estudos de impacto
sem política de transição
sem exigências de conteúdo local
sem estratégia de proteção a setores estratégicos
Governo Fernando Collor (1990–1992)
Aqui ocorreu a ruptura mais abrupta:
tarifas médias caíram de 55% para 14%
barreiras não tarifárias foram eliminadas
importações entraram sem contrapartidas
setores inteiros foram expostos sem preparação
Governo Itamar Franco (1992–1994)
Itamar não reverteu a abertura; ao contrário:
consolidou o novo regime tarifário
manteve a ausência de política industrial
preservou a lógica de abertura "desarmada"
Consequências imediatas
fechamento de milhares de fábricas
perda de fornecedores nacionais
desestruturação de cadeias produtivas
aumento da dependência de importados
queda do investimento industrial
A abertura não foi acompanhada de política industrial, tecnológica ou de inovação. Foi uma abertura irresponsável.
Privatizações: venda de ativos sem reconstrução institucional
As privatizações dos anos 1990 foram justificadas como forma de:
reduzir dívida pública
aumentar eficiência
atrair investimentos
modernizar setores intensivos em capital
Mas o processo teve problemas estruturais:
não houve política industrial associada
não houve exigência de conteúdo nacional
não houve estratégia tecnológica
não houve fortalecimento de fornecedores locais
não houve reconstrução de capacidades estatais de coordenação
Em países desenvolvidos, privatizações são acompanhadas de:
agências fortes
metas de inovação
exigências de P&D
proteção de setores sensíveis
No Brasil, privatizou-se sem reconstruir o Estado desenvolvimentista.
As privatizações — quando e em que governo
Governo Collor (1990–1992)
Primeira onda, ainda limitada, mas simbólica:
Usiminas (1991)
Aços Finos Piratini (1992)
Acesita (1992)
Collor também iniciou o desmonte institucional que preparou o terreno para a onda maior.
Governo Itamar Franco (1992–1994)
CSN (1993)
Cosipa (1993)
Escelsa (processo iniciado no governo Itamar)
Itamar não era entusiasta das privatizações, mas deu continuidade ao programa herdado de Collor.
Governo Fernando Henrique Cardoso (1995–2002)
Aqui ocorre a grande onda de privatizações, atingindo setores estratégicos:
Telecomunicações
Sistema Telebrás (1998) — maior privatização da história do país
→ desintegração do CPqD e perda de capacidade tecnológica nacional
Mineração
Vale do Rio Doce (1997)
→ privatizada por valor considerado muito abaixo do patrimônio real
→ tornou-se gigante global, porém sem controle nacional
Energia elétrica
Light (1996)
CPFL (1997)
Cerj (1996)
→ adquiridas por grupos estrangeiros
Química e petroquímica
Copesul
PQU
Nitrofértil
Ultrafértil
→ cadeia petroquímica fragmentada e desnacionalizada
Transportes
RFFSA (1996–1999)
Fepasa (1998)
→ desmonte da engenharia ferroviária nacional
Bancos estaduais
Banespa (2000)
Banestado (2000)
Bemge (1998)
Banerj (1997)
O governo FHC foi o período de maior desnacionalização e privatização da história brasileira.
Empresas brasileiras que foram desnacionalizadas
Além das privatizações diretas, houve um processo acelerado de desnacionalização, especialmente entre 1990 e 2002.
Indústria
Metal Leve → MAHLE (1996)
Cofap → Magneti Marelli (1997)
Arno → Grupo SEB (1997)
Gradiente → desestruturada pela abertura
Sharp Brasil → fechada após abertura
Alimentos e bebidas
Lacta → Kraft (1996)
Kibon → Unilever (1997)
Antarctica + Brahma → AmBev (1999) → AB InBev (2004)
Varejo
Pão de Açúcar → Casino (acordo de 1999)
Telecom e tecnologia
Embratel → MCI (1998)
Telesp → Telefónica (1998)
GVT → Vivendi (2009, mas fragilização começa nos anos 1990)
Esse processo reduziu drasticamente a capacidade do país de criar marcas globais, engenharia própria e centros de decisão nacionais.
A extinção do Artigo 171 da Constituição — o golpe final
Governo Fernando Henrique Cardoso (1995)
Revogado pela Emenda Constitucional nº 6, de 15 de agosto de 1995.
O Artigo 171 definia:
empresa brasileira
empresa brasileira de capital nacional
tratamento diferenciado para empresas nacionais em setores estratégicos
Era a base jurídica para:
política industrial
conteúdo local
compras governamentais estratégicas
proteção de setores sensíveis
financiamento direcionado a empresas nacionais
Consequências da extinção
o Estado perdeu a capacidade de diferenciar empresa nacional de multinacional
o BNDES passou a financiar multinacionais como se fossem nacionais
compras públicas deixaram de priorizar empresas brasileiras
políticas de conteúdo local ficaram fragilizadas
a política industrial perdeu seu fundamento constitucional
a desnacionalização acelerou
Foi uma das mudanças mais profundas e menos discutidas da história econômica brasileira.
O desmonte dos instrumentos de política industrial — governo por governo
Governo Collor (1990–1992)
extinção da CACEX
enfraquecimento do BNDES
fim de órgãos de planejamento
desmonte inicial da política industrial
Governo Itamar Franco (1992–1994)
continuidade do desmonte
ausência de reconstrução institucional
Governo FHC (1995–2002)
extinção formal dos NAIs
desmonte da área de participações
fragmentação da Telebrás e do CPqD
enfraquecimento da FINEP e do CNPq
esvaziamento da SUDENE e da SUDAM
redução do papel do BNDES como planejador
Foi o período de maior desestruturação institucional desde 1930.
A crença no mercado como estratégia
A lógica dominante da época era simples — e equivocada:
A competição internacional modernizará a indústria brasileira.
Mas isso ignorava um fato básico da história econômica mundial: nenhum país se industrializou ou se modernizou sem Estado forte, política industrial e proteção estratégica.
O Brasil acreditou que:
o mercado substituiria o planejamento
multinacionais trariam tecnologia espontaneamente
abertura geraria produtividade automaticamente
privatizações criariam inovação
o Estado deveria se retirar da economia
Nada disso aconteceu.
A perda de capacidades tecnológicas e industriais
A combinação de abertura abrupta, privatizações sem estratégia e desmonte institucional gerou:
desindustrialização precoce
perda de complexidade econômica
queda do investimento em P&D
fechamento de centros de engenharia
desnacionalização de setores inteiros
dependência crescente de importações
perda de autonomia tecnológica
Setores inteiros foram destruídos ou reduzidos a montadoras:
informática
telecomunicações
bens de capital
química fina
semicondutores
eletrônicos
automotivo
Enquanto isso, países asiáticos:
protegiam seus mercados
investiam em P&D
criavam marcas globais
fortaleciam empresas nacionais
usavam o Estado como coordenador
O Brasil fez o oposto.
Comparação internacional: o que o Brasil não fez
Enquanto o Brasil desmontava seu sistema de desenvolvimento, outros países faziam o contrário:
China
política industrial agressiva
metas tecnológicas
proteção estratégica
investimento maciço em P&D
fortalecimento de empresas nacionais
Coreia do Sul
apoio estatal contínuo
exigências de desempenho
construção de marcas globais
investimento em engenharia
Estados Unidos
Estado forte em tecnologia (DARPA, NASA, NSF)
compras governamentais estratégicas
proteção de setores sensíveis
Europa
política industrial coordenada
apoio a campeões nacionais
integração entre ciência e indústria
O Brasil foi o único grande país que abriu mão de sua estratégia de desenvolvimento.
O impacto de longo prazo
Os efeitos da ruptura dos anos 1990 ainda moldam o Brasil:
desindustrialização persistente
baixa produtividade
dependência tecnológica
déficit estrutural em bens de alto valor agregado
dificuldade de criar marcas globais
vulnerabilidade externa
incapacidade de competir em setores dinâmicos
O resultado para o Brasil
Os anos 1990 representaram uma ruptura profunda com o modelo de desenvolvimento construído desde Vargas. A abertura acelerada, as privatizações sem estratégia, a desnacionalização de empresas brasileiras e a extinção do Artigo 171 destruíram capacidades que levaram décadas para serem construídas.
O Brasil acreditou que o mercado substituiria o Estado, que a competição substituiria o planejamento e que a globalização substituiria a política industrial. Nenhuma dessas promessas se cumpriu.
O país entrou nos anos 2000 com uma economia mais aberta, mas também mais frágil, mais dependente e menos capaz de competir em setores de alta tecnologia.
A lição é clara: não existe desenvolvimento sem Estado coordenador, sem política industrial, sem autonomia tecnológica e sem projeto nacional.
Marcelo Lopes
Engenheiro e mestre em Engenharia de Produção. Atuou na formulação e gestão de políticas públicas nas áreas de ciência, tecnologia, inovação e desenvolvimento produtivo. Escreve sobre política industrial e estratégia tecnológica.



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